terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Resquícios de ontem

"A pertinência de um sonho adiado paira sobre esta cidade até ao último dia em que ela acorde para a realidade. E nunca mais é sábado. Mesmo assim, quando a pouco e pouco acorda, vê-se que continua rodeada de personagens que lhe perseguem os passos e trancam-lhe o caminho. Ou pior, vê-se que sobre si ainda persistem os olhares rancorosos dos varões de província e os que, com eles, vão entrando à boleia para o interior dos palácios, servilmente aplaudidos e vaidosamente acompanhados por damas de terceiro uso com decote de praxe até ao umbigo.
Vai-não-vai e depressa chegam ao povoado as recordações mais assustadoras: a real gana de um vice em mandar matar o seu primeiro; a menos que este entenda oferecer-lhe a cadeira a meio do reinado. Não, nada disso. Pelo ódio entre ambos, adivinha-se que a promessa maior do governante consiste em ficar até ao fim do mandato.
Estranho, mas mesmo muito estranho, foi o tratamento que alguma escumalha teve para com os seus rivais: insultos, ameaças, agressões, boatos... foi do pior, senhores! Porra para isto! e ainda dizem que não há asfixia democrática. Ò meu deus, que é feito do pluralismo democrático e do direito a pensar diferente? Onde param os valores da liberdade, da tolerância e da convivência política? Então não é que uma candidatura da oposição, nesta cidade, é tratada como se fosse o maior dos crimes! Até quando?
Outras vezes a cidade permanece vigilante à procura de novas alternativas e continua à espera desse tempo de mudança... Mas ainda aqui os varões acompanhados das damas de vestido decotado até ao umbigo, a perturbar a curiosidade dos pategos de serviço.
Pronto, a cidade vai esquecer o desplante. Vai afastar de si o mau humor, vai libertar-se das horas de maior inquietação e enfadonho e vai optar por tomar a rota do simpático e caríssimo Miguel Esteves Cardoso. Isto é, ir do Teatro Circo à Arcada, da Sé à Avenida Central, do Bom Jesus ao Sameiro, uma visita à Pedreira, depois comer um bacalhau à Narcisa bem regado com um verde da região, e, assim, forjar argumentos de valor para que se diga que esta cidade é o maior dos paraísos. Se não o for inventa-se. Aí sabe-se que todos os pensamentos podem ser agradáveis. Como este de acreditar piamente na navegabilidade do rio Este. Nada se perde. Oxalá, doravante se resgate o sorriso e não se aprenda a coabitar com a triste realidade de viver num tempo de esconjura da democracia. Se calhar, a fórmula precisa passa por um convite à multifacetada actriz Maitê Proença para uma visita à cidade com o objectivo único de se poder testar a ausência dum sentido crítico. Um valor que por aqui se vai perdendo à paulada. E não obriguem depois a brasileira a um pedido de desculpas.
"
Por Álvaro Oliveira, Escritor
in Correio do Minho, 20/10/2009

5 comentários:

Anónimo disse...

A cultura tem muito para dizer.

O pensamento é livre como o vento!

A Álvaro Oliveira, pseudónimo ou nome, pouco interessa. Obrigado.

Liberte-se a cultura, tolere-se a crítica, ame-se a liberdade ameaçada, condicionada, coartada, vendida! Viva-se. Ame-se. Trabalhe-se. Construa-se a cidade. Imploda-se o erro. Alimente-se a esperança.

Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe.

Anónimo disse...

O Sr. Álvaro Oliveira era todo de esquerda, mas como o filho foi derrotado para a Junta de Nogueira,agora já virou o bico ao prego. Ai se eu ponho a boca no trombone.

Anónimo disse...

É a chamada "Esquerda sem viseiras"...

Anónimo disse...

"Ai se eu ponho a boca no trombone."
Mas que mania esta de vir insinuar coisas e não passar disso! Se têm algo a dizer digam, por favor. Chega de ameaças falsas, chega de insinuações idiotas, chega de acusações infundadas. Falem e comprovem, por favor!

Paulo Carvalho disse...

O grande problema aqui é a ainda instalada mentalidade de "se não estás de acordo comigo então és contra mim"

Fazendo a analogia:

Se não és 100% a favor do poder instalado então és um alvo a abater.

Outra analogia:

Se eras da nossa cor assumidamente e agora já não és então és um alvo a abater.


Vejamos então.
Nos tempos que correm o fluxo de informação é superior ao que existiu no passado. Todos somos livres de mudar as nossas opiniões e reformular as mesmas de tempos em tempos baseado nas informações a que temos acesso. É a ordem da evolução.
Cada um é livre de expressar o que sente e o que pensa (ameaças e intimidações não são válidas para contra-argumentar, apesar de ainda existir este método).

Felizmente esse tipo de atitudes tem tendência a terminar com as gerações futuras, que já não se deixam influenciar por este tipo de mentalidade.

Basta olharem em seu redor e verem que cada vez menos existe o preconceito de esconderem a cor partidaria em votam com medo de repressálias.

Portanto a questão de "ai se eu ponho a boca no trombone" é totalmente descabida na sociedade que queremos e temos direito. Cada vez menos vocês têm influência com este tipo de atitudes e só levam a que sejam desprezados.