"Já atingi aquela idade democrática em que, tal como quem deixa de acreditar no Pai Natal, olho para a generalidade das sondagens com algum desprezo, seja por achar que os resultados estão longe dos graus de confiança estatística que dizem possuir, seja por entender que as mesmas funcionam como um elemento de viciação dos processos eleitorais mais do que como um qualquer contributo para o seu bom funcionamento.
Assim sendo, prefiro poupar esforços a incorrer na discussão inevitável sobre a falibilidade deste ou daquele estudo, desta ou daquela empresa, pese embora verifique que aquela tenda a falhar sempre mais do que esta e, curiosamente, sempre para o mesmo lado.
Acontece, porém, que as sondagens são muitas vezes elaboradas a pedido de órgãos de comunicação social, os quais, consideram estar a prestar um serviço aos seus leitores com a respectiva divulgação, dando-lhes uma informação fidedigna sobre os actos eleitorais em que irão participar e ajudando-os a formatar a sua decisão.
Quando assim não acontece, o que um qualquer órgão de comunicação social deve fazer é pedir desculpa aos seus leitores e às partes envolvidas num acto eleitoral que passa a estar parcialmente viciado, numa escala que, essa sim, é dificilmente mensurável.
Quanto mais sério e rigoroso for o referido órgão, mais se lhe deve exigir tal comportamento.
Ao Expresso, de que sou leitor regular de há décadas a esta parte, não posso aceitar que “enfie a cabeça na areia”.
Na análise efectuada na última edição à comparação dos resultados verificados com as sondagens divulgadas na véspera das eleições, enquanto que se discutiam as décimas de diferença das sondagens de Lisboa e Porto, Braga merecia apenas um lacónico “Apresentámos maioria absoluta de Mesquita Machado, que se verificou”, como atestado de qualidade do trabalho produzido e da tranquilidade da consciência editorial.
Faltou “só” dizer, que a sondagem divulgada para Braga foi uma verdadeira fraude informativa, um fracasso total, um “estudo” em que o partido vencedor consegue ficar abaixo do limiar inferior do largo intervalo de confiança estabelecido e a candidatura seguinte ficou mais de três pontos percentuais acima do limite superior de outro largo intervalo de valores presumido.
Dito de outra forma, os resultados reais expressaram uma diferença de menos de 3% entre as duas candidaturas, o equivalente a 2.600 votos, muito abaixo da vitória “garantida” pelos 10 pontos sugeridos pelo intervalo médio da sondagem publicada a 2 (dois) dias das referidas eleições.
Já a maioria absoluta seria sempre conquistada pelo partido vencedor, nem que tivesse apenas um voto de vantagem, num cenário de significativa bipolarização.
À luz destes resultados, um jornal como o Expresso não podia “fazer de conta” que tudo correra como se previu.
Já agora, e apenas para memória futura, a Eurosondagem fora a empresa cujas projecções para as Eleições Autárquicas em Braga já tinham falhado por 12 (doze!!!) pontos em 2005, a poucos dias das eleições, e que, então como agora, realizou diversas sondagens para o PS de Braga que foram publicamente divulgadas por este Partido.
E a verdade é que, não sei porquê, não me sai da cabeça a reivindicação do mercado de capitais americano de que as auditorias às empresas cotadas deviam ser pagas por organismos independentes e não pelas próprias…
Mas isso, como é óbvio, já nada tem a ver com o Expresso…"
Artigo publicado no Expresso de 31/10/09